O mundo fora do Consultório

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Desde o momento em que escolhi a Psicologia como faculdade e consequentemente profissão, trilhei um caminho que me levasse a ter a área Clínica como ofício. Enquanto estudante foi inevitável trabalhar em Recursos Humanos, mas assim de formada fui logo alugar minha primeira sala de atendimento e por certo tempo desenvolvi o consultório em paralelo à empresa em que trabalhava e depois à residência na área Hospitalar.

Todas as experiências foram fundamentais para que realizasse meu sonho do consultório e há bons anos tenho trabalhado exclusivamente neste cenário e sempre pensando sobre meu estar dentro e fora dele.

Estar no consultório, em atendimento, é um dos momentos mais felizes do meu dia, o estar lá para o outro, receber sua história, acolher suas dores, ser cúmplice dos seus sonhos, me faz sentir honrada! Como o universo do Humano me encanta! Li uma colocação que traduz exatamente o como me sinto neste papel: sou uma guardiã de segredos, uma grande privilegiada de ser escolhida por pessoas que se dispõem a confiar em mim e na minha entrega nesta relação.

O ambiente é aconchegante, o clima é de tranquilidade, o contexto é de compartilhamento e intimidade. Como não se apaixonar por esta profissão? Mesmo em sessões mais difíceis, às vezes tristes, outras mais agressivas, intensas, pra mim o saldo final é sempre positivo. Porém vamos ao lado obscuro deste mundo, que não é tão cor de rosa assim: além da capacidade de tolerar e lidar com as minhas próprias emoções relacionadas a cada processo (que inclui comumente ansiedade e frustração inevitáveis ao exercício do trabalho), meu grande desafio é a condição de isolamento inerente ao contexto do consultório.

Não sei o quanto esta questão é relevante à maioria dos profissionais, mas confesso que pra mim é um dos pontos mais sofridos. O dia se desenrola em sessões a dois (paciente e terapeuta) onde o cuidado está voltado ao universo do paciente e apesar da troca e da intimidade, não reflete a profundidade de uma relação não profissional onde o meu mundo também estaria em jogo, em cuidado. Uma coisa é estar para o outro, a favor do outro, outra coisa bem diferente é estar em relacionamentos de igual demanda.

Apesar de estar envolvida em várias relações no trabalho, no final do dia ainda sobra desejo de mais relacionamentos, ou melhor, de relacionamentos de outra ordem. Daí a importância de pertencer a outros grupos, de investir nos vínculos familiares e de amizade, de se envolver em hobbys, em oportunidades que possibilitem elos de amor e, principalmente, que me tirem da armadilha da clausura que o consultório pode se transformar.

Por que é engraçado pensar que o contexto que passo a maior parte do meu tempo é o mesmo sobre o qual menos posso me manifestar. Não existe, nesta profissão, o falar sobre o trabalho, o falar sobre pacientes e atendimentos, não é ético, quebraria toda construção de confiança no vínculo e exporia a vida de outro alguém. Não cabe! E desde o início entende-se que escolher esta profissão é a escolha por estar no papel de um confessor; contexto esse tão protegido que merece a atenção devida para não ser aprisionado.

Ou seja, o sair desta “poltrona” é fundamental para se alimentar de outros cuidados, de outros olhares, para exercer outros papéis, principalmente os papéis mais comuns e mais livres de condições tão específicas. Ser Psicóloga é uma vocação, mas estar Psicóloga só dentro do consultório; fora dele carrego as mesmas características inerentes a minha maneira de ser, mas preciso de outras fontes de intimidade que sustentem minha vida e façam esse jogo saudável o suficiente para existência de dois mundos tão diferentes e tão complementares.

 

 

 

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O meu “ser” Psicóloga!!

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Interessante pensar sobre este tema, sobre o meu exercício profissional…de cara o que posso afirmar é que depois de tantos anos me sinto muito a vontade com a forma que encontrei para estar neste lugar, mais livre, mais tranquila. 

Confesso que não achei fácil harmonizar as características pessoais com uma versão adequada profissionalmente. No início existe uma tendência a querer reproduzir formatos, referências e exemplos que, sem dúvida, geram mais segurança enquanto você ainda não tem a própria identidade profissional; mas com o tempo e a vivência do consultório você percebe que o mais adequado é construir a sua forma de ser Psicólogo (a).

É engraçado que, apesar de parecer um contexto muito livre, é muito fácil se aprisionar a mil regrinhas de como ser um (a) bom (a) Psicólogo (a): como se vestir, como e o que falar ao telefone, como receber seu paciente, como sentar, como tratar de valores, como como como…e como isso me deixava tensa! Na minha opinião essa cartilha não existe, não adianta se fantasiar de ser Psicólogo (a) e se perder no meio do caminho, o ideal é ser o seu ser mais autêntico, com suas características mais próprias direcionadas a uma relação que tem uma demanda específica: o cuidado com o outro.

É claro que para existir, a profissão precisa de parâmetros e regras, como tudo na vida, mas é importante não ficar refém de tudo isso, além do que, boa parte de como cabe conduzir um processo diz de bom senso, sensibilidade e conhecimento. Não faz sentido, aos meus olhos, conduzir da mesma maneira todos os processos de psicoterapia e perder a peculiaridade de cada relação que se constrói neste cenário.

Foi então que assumi minhas possibilidades de ser Psicóloga: sim, sigo regras de dias e horários fixos para meus pacientes; sim, atendo de 50 minutos a 1 hora a sessão, no mínimo uma vez por semana cada paciente e sim, sigo uma linha de atendimento: a Fenomenologia, minha referência de estudo.

Do mais acredito no encontro, na abertura do receber alguém e estar lá para ele (a), com as roupas que fazem parte do meu estilo, com a maquiagem que gosto de usar, com a proximidade que gosto de construir, com o toque, meu ser afetiva e humorada. Sim, dou risada, muitas vezes gargalhadas nas sessões, me emociono e uso da auto revelação como mais um recurso dentro do processo.

Talvez não seja a versão clássica que se imagina de um Psicólogo (a) e nem tenho a pretensão de julgar o que seria correto ou não dentro desta função; o que sinto é que não desejo estar escondida atrás de um papel e sim fazer um bom uso do lugar que ocupo nesta condição através da construção de uma relação genuína com meu paciente. Ele (a) tem que me sentir presente, ver verdade nos meus olhos, sentir segurança na minha fala pra que tudo isso ecoe de forma construtiva em seu processo. Por isso entendo que não posso ser inalcançável, inacessível, distante e opaca…quero ser apenas humana!