O poder da Fala!

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No post desta semana escolhi um tema que faz parte do meu dia-a-dia e é minha maior ferramenta de trabalho no consultório: a Fala. Tão banal e ao mesmo tempo tão especial. Tão simples e tão avassaladora. Tão doce e tão agressiva. Pouco nos damos conta de sua dimensão nas relações de maneira geral e principalmente como um dos recursos mais efetivos para nossa saúde emocional. Não poderia deixar este tema de fora…

 

É comum as pessoas confundirem o contexto de Psicoterapia a um cenário corriqueiro de relação de amizade e/ou relação afetiva e não compreenderem o valor de estar neste lugar. Afinal, por que vou falar com um “estranho” se posso falar com minha melhor amiga? Se posso conversar com meu pai, com minha namorada?

 

Justamente o fato de ser um “estranho” faz do Psicólogo um profissional disponível para relação de maneira distinta: desprovida de julgamentos, de envolvimento, de história, vínculo afetivo, que geralmente tendem a modelar a forma comum de se relacionar.

 

Isso não quer dizer que a escuta e a fala do terapeuta sejam descuidadas, ao contrário, são sentidos tão apurados e trabalhados na intenção de receber, compreender e se colocar, que tendem a ser técnica e emocionalmente adequadas a situação, com o distanciamento necessário para um olhar menos contaminado e mais apurado.

 

Acredito que a fala torna real nossas questões mais íntimas, aquelas que geralmente tentamos esconder de nós mesmos ou simplesmente banalizamos, questões que não dimensionamos corretamente, que enxergamos de maneira distorcida, que temos medo de entrar em contato, entre outras mil opções. Ou seja, falar não é tão fácil, porém o não falar pode ser um caminho ainda mais difícil, por restringir nosso existir mais autêntico.

 

A questão é que falar sobre si não diz apenas do se comunicar e sim do se encontrar; não é a fala para o outro e sim a fala para si mesmo, daí o diferencial de um tempo, espaço e relação que permita e favoreça essa dinâmica, que gere a possibilidade de sair do impessoal, da rotina, das relações comuns para o exercício de um estar com o outro voltado ao autocuidado.

 

Infelizmente, muitas vezes esquecemos que os ouvidos mais próximos da nossa boca são os nossos e não nos atentamos, não validamos a própria fala, via de regra tão rica, que contempla todas as respostas que precisamos.

 

Em suma, a fala revela, a fala concretiza, a fala dá lugar no mundo para o que pensamos e sentimos. Veja aí a dimensão do seu poder e a partir daí a crença no cuidado através desta via tão importante. Se permita, se disponha e encontre tempo para ouvir, falar e estar por inteiro para si mesmo, essa é a grande abertura para um processo de Psicoterapia.

 

Rótulos e Diagnósticos

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Tanto na vida comum quanto na área de Saúde é extremamente corriqueiro rotular e/ou usar de um diagnóstico para caracterizar alguém. Parece que nada é mais eficiente do que essa representação precisa, científica para dar conta de um mundo que cobra respostas e objetividade a todo tempo.

Acredito que um diagnóstico é inquestionável quando consideramos patologias graves que demandam terapêuticas específicas, mas geralmente ele é contraproducente quando falamos em um processo de Psicoterapia comum. A Psicoterapia tende a ser um processo gradual, que se aprofunda, que busca conhecer o paciente da forma mais integral possível e quando colocamos um rótulo a frente disso, a chance de limitar o olhar com relação ao outro e consequentemente o vínculo é muito grande.

Quando definimos alguém dentro de um padrão tendemos a estar atentos a tudo que o encaixa dentro desta fôrma e podemos deixar de nos ocupar com o mais importante que é o estar e se apresentar do paciente na relação com todos os aspectos que fazem parte do seu ser no mundo.

Vamos pensar no uso de drogas: um paciente que chega ao consultório com esta questão É um dependente químico ou a dependência química faz parte do que ele vivencia? Acredito tanto na segunda opção que não consigo restringir meus pacientes a um olhar exclusivo, único. Essa pessoa que está buscando ajuda para cuidar de uma dependência também faz parte de uma família, tem uma profissão/ocupação, está inserida em um meio social, tem história, hobbys, desejos, buscas, necessidades, que a tornam muito maior do que a especificidade de um diagnóstico.

Mais importante ainda é destacar a grande armadinha do efeito do rótulo para o paciente, que é a de agir como uma profecia que se auto realiza quando o mesmo é referenciado por tais características. O rótulo pode estimular e perpetuar as características fazendo com que o paciente se aprisione e tenha dificuldade em se perceber de forma mais ampla e íntegra.

A verdade é que os sintomas são apenas consequência da inter-relação entre cada parte que constitui o todo de um ser, incluindo: a depressão, a síndrome do pânico, o TOC, um estado ansioso e toda gama do extenso cardápio de doenças na área de saúde mental. O sintoma manifesta algo e o nosso olhar deve estar afiado para traduzir e alcançar esta manifestação.

Ou seja, rótulos não cabem para pessoas, não dizem da realidade do ser de alguém, eles apenas findam esse alguém em características rígidas que restringem todo seu potencial de ser. Abaixo aos rótulos e liberdade para uma existência espontânea, criativa e principalmente incerta das possibilidades de cada um…tanto no mundo comum quanto no âmbito da área da Saúde.

O meu “ser” Psicóloga!!

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Interessante pensar sobre este tema, sobre o meu exercício profissional…de cara o que posso afirmar é que depois de tantos anos me sinto muito a vontade com a forma que encontrei para estar neste lugar, mais livre, mais tranquila. 

Confesso que não achei fácil harmonizar as características pessoais com uma versão adequada profissionalmente. No início existe uma tendência a querer reproduzir formatos, referências e exemplos que, sem dúvida, geram mais segurança enquanto você ainda não tem a própria identidade profissional; mas com o tempo e a vivência do consultório você percebe que o mais adequado é construir a sua forma de ser Psicólogo (a).

É engraçado que, apesar de parecer um contexto muito livre, é muito fácil se aprisionar a mil regrinhas de como ser um (a) bom (a) Psicólogo (a): como se vestir, como e o que falar ao telefone, como receber seu paciente, como sentar, como tratar de valores, como como como…e como isso me deixava tensa! Na minha opinião essa cartilha não existe, não adianta se fantasiar de ser Psicólogo (a) e se perder no meio do caminho, o ideal é ser o seu ser mais autêntico, com suas características mais próprias direcionadas a uma relação que tem uma demanda específica: o cuidado com o outro.

É claro que para existir, a profissão precisa de parâmetros e regras, como tudo na vida, mas é importante não ficar refém de tudo isso, além do que, boa parte de como cabe conduzir um processo diz de bom senso, sensibilidade e conhecimento. Não faz sentido, aos meus olhos, conduzir da mesma maneira todos os processos de psicoterapia e perder a peculiaridade de cada relação que se constrói neste cenário.

Foi então que assumi minhas possibilidades de ser Psicóloga: sim, sigo regras de dias e horários fixos para meus pacientes; sim, atendo de 50 minutos a 1 hora a sessão, no mínimo uma vez por semana cada paciente e sim, sigo uma linha de atendimento: a Fenomenologia, minha referência de estudo.

Do mais acredito no encontro, na abertura do receber alguém e estar lá para ele (a), com as roupas que fazem parte do meu estilo, com a maquiagem que gosto de usar, com a proximidade que gosto de construir, com o toque, meu ser afetiva e humorada. Sim, dou risada, muitas vezes gargalhadas nas sessões, me emociono e uso da auto revelação como mais um recurso dentro do processo.

Talvez não seja a versão clássica que se imagina de um Psicólogo (a) e nem tenho a pretensão de julgar o que seria correto ou não dentro desta função; o que sinto é que não desejo estar escondida atrás de um papel e sim fazer um bom uso do lugar que ocupo nesta condição através da construção de uma relação genuína com meu paciente. Ele (a) tem que me sentir presente, ver verdade nos meus olhos, sentir segurança na minha fala pra que tudo isso ecoe de forma construtiva em seu processo. Por isso entendo que não posso ser inalcançável, inacessível, distante e opaca…quero ser apenas humana!