Rótulos e Diagnósticos

rotulo

Tanto na vida comum quanto na área de Saúde é extremamente corriqueiro rotular e/ou usar de um diagnóstico para caracterizar alguém. Parece que nada é mais eficiente do que essa representação precisa, científica para dar conta de um mundo que cobra respostas e objetividade a todo tempo.

Acredito que um diagnóstico é inquestionável quando consideramos patologias graves que demandam terapêuticas específicas, mas geralmente ele é contraproducente quando falamos em um processo de Psicoterapia comum. A Psicoterapia tende a ser um processo gradual, que se aprofunda, que busca conhecer o paciente da forma mais integral possível e quando colocamos um rótulo a frente disso, a chance de limitar o olhar com relação ao outro e consequentemente o vínculo é muito grande.

Quando definimos alguém dentro de um padrão tendemos a estar atentos a tudo que o encaixa dentro desta fôrma e podemos deixar de nos ocupar com o mais importante que é o estar e se apresentar do paciente na relação com todos os aspectos que fazem parte do seu ser no mundo.

Vamos pensar no uso de drogas: um paciente que chega ao consultório com esta questão É um dependente químico ou a dependência química faz parte do que ele vivencia? Acredito tanto na segunda opção que não consigo restringir meus pacientes a um olhar exclusivo, único. Essa pessoa que está buscando ajuda para cuidar de uma dependência também faz parte de uma família, tem uma profissão/ocupação, está inserida em um meio social, tem história, hobbys, desejos, buscas, necessidades, que a tornam muito maior do que a especificidade de um diagnóstico.

Mais importante ainda é destacar a grande armadinha do efeito do rótulo para o paciente, que é a de agir como uma profecia que se auto realiza quando o mesmo é referenciado por tais características. O rótulo pode estimular e perpetuar as características fazendo com que o paciente se aprisione e tenha dificuldade em se perceber de forma mais ampla e íntegra.

A verdade é que os sintomas são apenas consequência da inter-relação entre cada parte que constitui o todo de um ser, incluindo: a depressão, a síndrome do pânico, o TOC, um estado ansioso e toda gama do extenso cardápio de doenças na área de saúde mental. O sintoma manifesta algo e o nosso olhar deve estar afiado para traduzir e alcançar esta manifestação.

Ou seja, rótulos não cabem para pessoas, não dizem da realidade do ser de alguém, eles apenas findam esse alguém em características rígidas que restringem todo seu potencial de ser. Abaixo aos rótulos e liberdade para uma existência espontânea, criativa e principalmente incerta das possibilidades de cada um…tanto no mundo comum quanto no âmbito da área da Saúde.

Anúncios

O lidar com a dor!

sabe-o-que-doi-e-fingir-que-nao-ta-doendo

Levante a mão quem nunca sentiu dor?

Tenho certeza que não veria uma mãozinha no ar…afinal, todos nós já passamos, estamos passando ou iremos passar por alguma situação que promove dor, é intrínseco ao estar vivo; sendo que o que dói pode chegar das mais variadas formas: um conflito no trabalho, um desentendimento com o marido/esposa, o aparecimento de uma doença, a perda de alguém importante…não dá pra enumerar as possibilidades geradoras de dor, tão pouco sua dimensão e importância.

Nada é mais particular que a vivência da nossa dor e geralmente ela se mostra maior, mais pesada e difícil de lidar justamente porque é nossa!! Nessas horas, nenhum paralelo com outras dores ou exemplos aplaca o que sentimos. Por isso insisto tanto na ideia de “dar lugar a dor”. Negar, fugir, esconder, não faz com que ela desapareça, ao contrário, a tendência é que ela tenha um efeito rebote e apareça de forma mais avassaladora ainda…Ou pior, que ela ecoe de outra maneira na tentativa de se manifestar, como através das somatizações, por exemplo, e aí estamos falando de uma grande bola de neve emocional. A dor subjetiva transformada em dor concreta.

Dar lugar a dor também não significa dividir tudo com todos a todo tempo, apenas como um escoar ou livrar-se do que se sente. Esse oposto também pode gerar certa fragilidade ao perceber que suas questões estão tão expostas e sujeitas a mil intervenções. Desta forma pode-se sofrer por transferir a responsabilidade de suas dores e por sentir-se invadido pelo outro.

Acredito que a proposta seja a de respeitar seu tempo para possibilidade de lidar com a dor e a partir daí compartilhar com alguém que caiba neste papel de cuidado; considerando desde alguém afetivamente vinculado, como um amigo(a), pai, mãe, irmão/irmã, parceiro(a) até um profissional qualificado para esta demanda, como um Psicólogo(a). Honestamente vejo valor em ambos os papéis, inclusive acredito que sejam bem complementares, visto que exercem funções com nuances bem diferentes.

De um lado pode existir o colinho, o aconchego, a crítica, a bronca e todo leque de ações e emoções que o vínculo afetivo oferece e, por outro lado pode existir o espaço, o tempo, o acolhimento e o posicionamento afinado do olhar de um profissional, na distância necessária para percepção de pontos que podem se perder no emaranhado afetivo das outras relações. Perfeito!!

Com toda essa oferta de ajuda, de apoio, de mãos para serem dadas porque não compartilhar a dor e dar a chance para que ela possa se transformar através da elaboração junto ao outro? Pense nisso…